domingo, 1 de novembro de 2015

LONDRES: QUINTO DIA

Parece muito mas passou rápido demais. Estou ouvindo Noel Rosa agora e lembrando de como foi bom ter levado Tom Jobim e Noel Rosa para Londres. Porque ficamos muito em casa também. Gatos caseiros, gatos domésticos.
Não falei dos taxis londrinos que chamam a atenção e tiram o sério da cidade. São anúncios ambulantes e extremamente curiosos. Vi pessoas fotografando os taxis e até procurando a melhor pose com o taxista. Essa atitude simpática dos motoristas corresponde a de um povo solícito, de forma geral. A cidade é cosmopolita e encontramos gente de todas as nacionalidades. Mas sempre prontos a ajudar. A senhora que me viu esperando na porta da casa errada quando cheguei a Notting Hill e me ofereceu hospitalidade, querendo que esperasse com ela enquanto não chegasse a dona do apartamento. Ou o funcionário do metrô que levou a gente até o equipamento para saber quanto resta de crédito no passe. Ou a moça simpática que procurou a localização da Tate Modern Gallery no Google Map no seu próprio celular. Achei incrível! Inclusive porque além de amáveis são risonhos e essa não era a idéia que tinha deles.
Nesse último dia, porque era sábado tínhamos planejado passear em Portobello Road e Portobello Road Market e talvez ir também ao Camden Lock Market.
Portobello Road na esquina de nossa casa.
Quando saímos de casa vimos uma rua totalmente diferente, não mais um quarteirão da feira de antiguidades e variedades mas cinco ou mais absolutamente cheios de quinquilharias, barracas, comidas e flores. Extremamente movimentado e populoso. Milhares de pessoas de todas as idades, andando pelas ruas e calçadas. Ficava até difícil de ver as barracas. Parecia a rua do Bom Jesus no carnaval de Recife. Vendem de tudo, um bric-à-brac. Olhando o movimento intenso e divertido desistimos de ir a quanquer outro lugar e começamos nosso desbravamento.



Uma casa de bonecas.
Nunca se sabe por onde começar. Mas começamos com brinquedos. Tinha comprado um típico urso londrino na Harrods – The Paddington Bear - e encontramos centenas deles numa barraca. Muito mais barato. Claro que o da Harrods é melhor. Andamos, vimos milhares de coisas interessantes, Jan comprou um monóculo numa barraca que dizia – tudo nessa metade é 4 pounds, na outra metade 2. Tudo bem barato. Nessa barraca comprei duas pulseiras de coral, claro que sintético por esse preço. Mas quando ingenuamente perguntei à dona do local se era coral, as pessoas em volta começaram a rir. Era difícil andar. Parecia um dia de show, milhares  de pessoas vindo e outras tantas saindo. 
Amo casa de bonecas.














Queria ser criança.


Quase uma obsessão minha essa de casas de bonecas. Sonhei sempre com uma quando menina. Um amigo inglês de meu pai tinha uma que me fascinava, perfeita nos mínimos detalhes, com despensa e pequenos objetos de limpeza e de cozinha. Um dia estava doente, quando tinha cerca de dez anos de idade e estando um marceneiro trabalhando em casa desenhei e pedi a ele que fizesse para mim uma casa de bonecas. Mamãe permitiu e assim foi feita. A casa abria toda na frente que não era o meu desenho, mas tinha duas janelas, duas portas frontais e uma lateral com varanda. Todos os amigos de meus pais e eles procuravam a mobília apropriada e lembro que o mais difícil foi achar um banheiro. Tinha fogão, geladeira e até um abajour que acendia a luzinha com pilha. 
Minha infância que não volta mais mas que permanece na memória e nas paixões.



Tantas coisas para ver que estava meia perdida e olhem que adoro feiras e barracas. Encontramos velhas edições de livros, tipo Dom Quixote, obra completa de Edgar Allan Poe e muito mais. 
O difícil é carregar livros em viagens porque o Dom Quixote me tentou e me fez lembrar do pai de Magnólia que tinha uma coleção mais que completa de Dom Quixote, livros e estátuas. Sempre que falamos sobre esse passeio, eu e jan, nos arrependemos de não termos comprado as coleções que nos encantaram.
Andando mais, vimos que de repente a feira se torna uma feira de comidas, verduras, frutas, pães ou lanches. Ou de roupas de segunda mão tipo brechó. Colares, broches, lentes de aumento, prataria inglesa. Impressionante a quantidade de pessoas. Não paravam de chegar. 
O monóculo de Jan.

Minhas pulseiras de falso coral.

Nosso restaurante predileto em Portobello Road.
Paramos para um lanche no nosso bar predileto, o Portobello Gold, também Oyster Bar, sabendo que tínhamos uma mesa reservada para às 7 da noite. Para jantar. 
O Portobello Road Market se estende além dessa rua, vai até o metrô, muitas lojas e restaurantes fechados durante a semana, abrem. Tinha sido frustrante a visão da rua nos outros dias comparando com a lembrança que tinha do sábado, quando estive lá e comprei talheres antigos de servir de prata inglesa e um cristal vitoriano emoldurado em prata como pingente.




Allsaints Spitalfields.
Ainda percorrendo o setor de antiguidades, na esquina de Portobello Road com a Westbourne Grove encontramos a loja com a decoração mais original que encontrei na minha vida. A loja é a Allsaints Spitalfields, uma rede de loja de roupas para jovens e todas as paredes são revestidas com máquinas de costura antigas. São centenas de máquinas de costura cobrindo  paredes e vitrines. Essa é uma cadeia de lojas americana para jovens presente em diferentes cidades no mundo e que não foi muito bem aceita nessa rua de antiguidades, quando lá aportou em 2010. Dizem que a decoração original foi decidida para combinar melhor com a atmosfera da rua e da feira aos sábados.
Meu modelo favorito.
Ainda a loja e as máquinas de costura.
















O esquilinho fazendo pose.
O dia era lindo e fomos andar, procurando especificamente um parque, o Holland Park que nunca achamos mas chegamos no Kensington Palace, a residência de Lady Diana. Hoje li que o príncipe Harry e Kate vão morar lá. Estava em reforma nessa época. Encontramos um esquilo que gostava de gente.




Esquilinho envergonhado.















Uma vista do Palácio de Kensington.


O Palácio de Kensington, uma residência real, situa-se no Kensington Garden, e tem sido residência oficial para a família real inglesa desde o século XVII.  O palácio foi construído como uma mansão de dois andares em 1605. Foi chamada de Notting House e comprada pelos monarcas da Inglaterra William e Mary em 1689, quando foi expandida e cercada de jardins. O Palácio foi a residência da Rainha Anne que ampliou os jardins e construiu a Orangery como uma área de recreação. Hoje essa linda construção é um restaurante e cafeteria ideal para um típico chá das cinco que não lembramos de tomar. 


Outro ângulo do palácio.
O palácio foi severamente danificado durante os bombardeios da segunda guerra mundial (The Blitz) em 1940.  Foi reconstruído e usado sempre como era sua tradição como residência de parentes próximos da monarquia. 
Em 1981 os apartamentos 8 e 9 do palácio foram combinados para criar a residência oficial em Londres do Príncipe Charles e da sua belíssima mulher, a sempre lembrada e trágica Diana. Lembrei passeando como seria educar príncipes modernos como William e Harry nesses belos jardins. Os dois estudaram nas escolas preparatórias de Notting Hill. Lady Di morou lá até sua morte. Acho que todos lembramos da enorme quantidade de flores e da vigília dos londrinos em frente ao palácio.
Percorri todos esses caminhos, vi esses belos jardins, sempre pensando nela e em sua visão da nobreza, da felicidade e quem sabe do destino. Desse palácio saiu o cortejo funeral da linda princesa de um conto de fadas às avessas para a cerimônia final na Abadia de Westmisnter. Não lembrei da sua morte mas de sua vida de mãe de duas crianças nesse local que devia ser um paraíso infantil.
Lagos e fontes do Palácio de Kensington: Sunken Garden.
Hoje é a moradia do Príncipe William e de sua bela mulher Kate Middleton. Estávamos lá justo no início das reformas para a nova residência desse casal simpático da monarquia inglesa.
O príncipe Harry também mora lá num apartamento de um quarto. Assim parece que esse palácio na realidade é um hotel real, um hotel para a realeza.
Os jardins de Kensington são um dos parques reais de Londres, situado em sequência ao Hyde Park. Juntos o Kensington Garden, o Hyde Park, o Green Park e o St. James's Park formam uma área verde quase contínua, um pulmão verde no coração de Londres. O limite entre esse jardim e o Hyde Park é um caminho (The Ring) e uma ponte (Serpentine Bridge). 
Esse jardim é cercado e mais formal que o Hyde Park e aberto ao público somente durante o dia.
Kensington Palace Orangery.
Outra vista do café e restaurante.
















Sempre andamos muito. E pensem numa coisa saudável que gostaria de continuar fazendo no Brasil. Mas como, com nosso calor e nossas ruas perigosas?
Vista do belo parque.



Há um longo poema muito pedante de Thomas Tickell, chamado Kensington Garden, descrevendo em priscas eras o passeio das raparigas em flor, das damas inglesas, sob céu azul e caloroso sol, em seus ricos vestidos de brocados, sedas e damascos.

"Where Kensington, high o'er the neighbouring lands 
Midst greens and sweets, a regal fabric, stands,
And sees each spring, luxuriant in her bowers,
A snow of blossoms, and a wild of flowers,
The dames of Britain oft in crowds repair
To gravel walks, and unpolluted air.
Here, while the town in damps and darkness lies,
They breathe in sun-shine, and see azure skies;
Each walk, with robes of various dyes bespread,
Seems from afar a moving tulip-bed,
Where rich brocades and glossy damasks glow,
And chints, the rival of the showery bow."

Adoro andar, olhar/ observar pessoas, crianças, bicicletas. Parar e sentar um pouco. Andar de novo. E voltar para casa, o lugar que estávamos chamando de casa. Lets go home! dizemos um ao outro com prazer.
Sempre voltando para nossa casa londrina.
Tinha visto tudo lá no mercado de Portobello Road e já em casa decidi voltar para procurar o lenço de Hermés que estava exposto numa vitrine de brechó por 40 pounds (em torno de 120 reais). Achei a loja mas havia um número 1 escondido valendo 100 e o preço final era 140. Daí comprei um Paloma Picasso, vermelho e muito bonito que custou 40 pounds. Experimentei um casaco Yves Saint Laurent e vi montanhas de roupas de moda.
Nosso jardim inglês.












Tinha que aproveitar a casa ao máximo de tão linda que foi.

Beijos para todos que conseguem ler minhas besteiras. 
Nossa mesa reservada para o jantar.
De noite fomos jantar na nossa mesa reservada, feliz com um vestido marinho e o lenço vermelho. Pela primeira e única vez de sapato alto ladylike. Comi de novo ostras e ambos um Carbonara que estava divino. Vinho da casa. Tinha um garçon muito engraçado com um bigode a Salvador Dali. Tinha uma casa muito engraçada é uma música que está cantando em mim. Tinha uma vida muito engraçada. Não. 






















Tenho uma vida muito engraçada que me leva a experiências maravilhosas. Eu, Jan, uma brasileira desajeitada, um holandês que sabe tudo e vê tudo, uma cidade cosmopolita e especial, um bairro mágico, memórias que vão ficar até sempre. Esses dias vão fazer parte da minha vida quando estiver bem velhinha numa cadeira de balanço ohando o tempo passar.
Agora em Arnhem estou com fome, vamos comer uma maravilhosa comida holandesa: salsichas especiais com brusselsprouts, batatas, noz moscada. É a segunda vez que como e adoro! O gato anda atrás de mim, ouvimos Bing Crosby, Ella Fitzgerald e Glenn Miller. Também limpamos o jardim catando as milhares de folhas amarelas que continuam caindo e não vão parar até o inverno.
Nosso jantar de despedida de Notting Hill e meu lenço Paloma Picasso de brechó.


Paddington Bear.









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