Esse foi o dia da cultura. Nosso primeiro programa foi
visitar a Tate Modern Gallery e de noite já tínhamos os tickets para o concerto
da igreja.
Foi um dos dias mais bonitos nessa viagem a Londres. Chegamos por metrô numa parte
bem antiga da cidade. Não sabíamos de que lado do Tâmisa estávamos. Afinal é
uma cidade feita para tatus e quando saímos do metrô não sabemos onde estamos
se não conhecemos a cidade. Perguntamos a uma das poucas londrinas que
encontramos e ela, que não sabia também, pegou o i-phone e procurou no Google
Map o endereço para nos ensinar. Impressionante como foram sempre simpáticos os
ingleses que encontramos, em qualquer lugar.
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| Southwark Cathedral. |
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| Outra vista da catedral contra o céu azul desse dia. |
A primeira construção que chamou nossa atenção foi uma catedral, a Southwark Cathedral, uma velha igreja, talvez a primeira nessa região, logo ao sul da London Bridge. Segundo a tradição oral havia ali uma comunidade de freiras, possivelmente já no século VII. No século IX o Bispo de Winchester substituiu as freiras por padres. A primeira referência escrita é de 1086. Verdade que estou falando em datas tão antigas? Claro, a catedral que a gente viu não é essa ancestral mas sim as reformas realizadas a partir do século XIX quando a região tinha condições péssimas de vida, como foi bem retratado nos romances de Charles Dickens e nas pesquisas sociológicas de Charles Booth. Nessa época mais antiga a igreja era chamada de Saint Saviour's Church. Tornou-se catedral de Southwark em 1905.
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| A fachada da catedral. |
Na realidade a catedral está na margem sul do Tâmisa bem perto da London Bridge. A construção conserva a forma gótica de sua estrutura antiga dos séculos XIII e XV, embora refeita , como já falei, em fins do século XIX.
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| Jan Kremer em nosso passeio. |
Continuamos a andar felizes numa das partes mais antigas de Londres, sempre pelo cais, avistando a
London Bridge na paisagem.
E nesse caminho, por ruas estreitas, vimos um estranho navio, a reconstrução do Golden Hinde II, o navio de Sir Francis Drake, usado na circunavegação do globo entre 1577 e 1580. Não sabíamos que havia um passeio, com viagens interativas e atores vestidos como na época. Não somos realmente turistas convictos e andamos ao sabor dos ventos. Acho que sabia do navio com Pelican, não com esse nome dado em homenagem ao patrono da aventura.
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| The Golden Hinde II para turista. |
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| Caminhos estreitos. |
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| Parede remanescente do palácio. |
Passamos na prisão mais antiga da cidade, com ainda uma parede de pé. A mais velha e mais notória prisão medieval fica nessa região chamada The Clink funcionou desde o século XII até o século XVIII, mais precisamente 1780. É também um museu aberto a visitações. A prisão era bem próxima ao palácio de Winchester, palácio do Bispo de Winchester. O nome "The Clink" provavelmente se origina do som das fechaduras de metal das celas ou das correntes de metal dos presos se arrastando.
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| Winchester Palace - placa explicativa. |
Na realidade a parede em pé não é da prisão mas do palácio de Winchester. Isso não sabia no primeiro momento de escrever diários de viagens, mas agora reconstituindo nossos passos e revendo todas as fotos. Essa bela parede é remanescente do grande "hall" do Winchester Palace mostrando a "Rose Window", janela em forma de rosácea, e o arranjo habitual na época das três portas das passagens para a cozinha, adega e despensa. Esse era o palácio do sempre todo poderoso bispo de Winchester. A cidade de Winchester foi capital para reis saxônicos da Inglaterra nessas velhas eras.
O palácio foi destruído pelo fogo em 1814 sobrando parte da grande entrada com essa janela redondosa especialmente bela, provavelmente erigida no sécuo XIV. Essa área tinha passagem direta para o rio Tâmisa, proporcionando a entrega fácil de suprimentos para as comedorias sacras palacianas.
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| A parede e a rua estreita. |
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| The Rose Window. |
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| Fachada da Tate Modern Gallery. |
Continuando nossa caminhada pela margem sul do Tâmisa, pela região antiga chamada de London Borough of Southwark, cheia desses prédios instigantes, chegamos enfim ao nosso destino: a Tate Modern Gallery. Uma construção moderna num prédio antigo,
com uma enorme área livre na beira do rio, montes de estudantes e uma ponte
somente para pedestres para atravessar o Tâmisa. Foi uma pena que não pegamos
um barco para um passeio, mas estava sempre frio e ventando, apesar do céu
azul. Situada na margem do rio Tâmisa oposta à catedral de Saint Paul, cuja abóbada descortinamos na paisagem. O prédio antigo era a sede da Bankside Power Station. Faz parte do Tate Group, constituído pela Tate Britain, Tate Liverpool, Tate St. Ives e Tate Online.
O prédio original foi construído emtre 1947 e 1963 e fechado em 1981. Em 1994 foi realizado um concurso para a construção no local da nova galeria Tate para abrigar a coleção sempre em expansão de arte moderna e conteporânea. Os arquitetos vencedores Herzog & de Meuron apresentaram um projeto de reaproveitamento do prédio antigo, reinventando seus espaços. Um exemplo de uso adaptativo de construções antigas, em voga na Europa, inclusive para igrejas, o processo de encontrar nova vida para velhas construções. O prédio manté o estilo da fachada, piso de cimento e outras características da antiga fábrica.
As coleções dessa galeria datam de 1900 para cá, consistindo de arte moderna internacional e conteporânea.
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| Querendo ser londrina. |
Na galeria pegamos um sistema de audiovisual/ multimedia, que explica várias das obras expostas. Todos pintores modernos a partir de Picasso, Modigliani, Munch. Alguns que não conhecia e algumas coisas que para nós não parece arte e lembra muito uma Bienal em São Paulo. São quatro andares, mas realmente dois valem a visita.
O sistema de audio é excelente, porque temos conhecimento da descrição de cada obra, do estilo, de alguma história do autor e às vezes até dos esboços iniciais daquele trabalho ou suas referêcias de inspiração. Um andar tem exposições especiais de artistas contemporâneos.
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| Sunglower Seeds 2010, Ai Weiwei. |
Dos artistas contemporâneos Jan queria especialmente ver a obra de Ai Weiwei. Estranho, não sabia nada sobre ele e a obra exposta se chamava Sunflower Seeds 2010, um trabalho realizado com dez toneladas de sementes de procelana de girassol, aproximadmente oito milhões delas, feitas manualmente por artesões. O projeto chamado Ai Weiwei's comission for The Unilever Series esteve em exposição no "Turbine Hall"entre outubro de 2010 e maio de 2011. A obra exposta e comprada pela galeria compreendia apenas um décimo das sementes, dez metros cúbicos delas arranjadas numa escultura de forma cônica. Nessa forma foi exposta entre junho de 2011 e fevereiro de 2012. Pode ter outras apresentações. A obra faz referência à revolução cultural chinesa quando a propaganda considerava Mao o sol sendo a massa do povo girassóis voltados para a luz, para ele.
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| Ai Weiwei. |
Outro significado era compartilhar essas sementes com um gesto de compaixão numa fase de pobreza extrema e incertezas. Também sugeria a produção chinesa em massa chamando a atenção para o "made in China". Como jornalista e muito bem informado Jan estava a par dessa arte quase social e cheia de crítica humanística. Ai Weiwei nascido na China em 1957 é conhecido pela suas refer6encias metafóricas, pelo humor e ironia política no seu trabalho artístico.
Liberty is about the right to question everything, sua frase na apresentação da obra.
O café tem uma varanda externa com uma linda vista para o rio.
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| No café encantados com tudo. |
Na realidade esperava bem mais dessa galeria, que tem apenas três Picassos, um Modiagliani, um Diego Rivera, um Munch. Acho que o MASP tem uma coleção própria melhor. Mas o antigo Tate nós dois conhecíamos.
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| Foto da antiga fábrica, hoje galeria. |
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| A pombinha prosaica no café. |
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| Área externa à margem do Tâmisa. |
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| A outra margem do rio. |
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| Southwark Bridge, River Thames. |
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| A cúpula da catedral de Saint Paul no outro lado do rio. |
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| Atravessando a Millenium Bridge. |
Atravessamos o rio pela ponte de pedestres, em frente à catedral de Saint Paul, a "The Millenium Bridge", que liga o Bankside onde estávamos à City of London. Foi aberta em junho de 2000, projeto do arquiteto Norman Foster, uma ponte suspensa , feita em aço, mas que foi apelidade pelos ingleses de "Woobbly Bridge", pela instabilidade no início. Essa ponte trêmula não experimentamos porque seus porblemas estruturasi foram corrigidos e a ponte reaberta em 2012.
É uma sensação espetacular atravessar essa ponte. Gosto de verdade desse constraste entre o velho e o novo e das intervenções de bom gosto qu vejo nas cidades da Europa.
Chegamos então na catedral de São Paulo com sua majestosa cúpula. Imponente. Formosa.
Estava fechada à visitação nesse dia por causa de um movimento de protestos contra o capitalismo, no in;icio da crise financeira da Europa.
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| A cúpula da catedral. |
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| Protestos em Londres: Capitalism is Crisis. |
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| Outra foto. |
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| A bela cúpula. |
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| Um taxi londrino. Cada um é um taxi londrino. Adoro. |
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| Um taxi londrino é um taxi. Único. |
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| Depois de um lanche. |
Fomos então andar e descobrir onde era a igreja de Saint
Martin-of-the-Fields. Seguindo um guia mostrando o perfil da igreja com essa torre
pontuda, gótica de muitas igrejas da Europa.
Nunca imaginei que Londres tivesse tantas igrejas. Cada
torre pensávamos: é ela. E não era. Antes do grande incêndio de 1666, a City of London, o distrito financeiro, chamado também Square Mile, possuía um número incrível de aproximadamente 100 igrejas. Das 86 destruídas pelo fogo, 51 foram reconstruídas, a maioria por arquitetos associados a Christopher Wren, o criador da catedral de Saint Paul.
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| The Royal Couts of Justice. |
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| A bela fachada com uma "Rose Window". |
Acho que andamos mais nesse dia do que no
“walking day”. Não sei quantas estações de metrô até Trafalgar Square onde fica a
igreja, na frente de Charing Cross Station. É fantástico como reconhecemos os
nomes dos lugares, muito por causa de Sherlock Holmes e Poirot. Os nomes são os
mesmos. No caminho encontramos uma Mac Donalds para um enorme hamburger (para
Jan) e batatas fritas para mim.
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| Sempre caminhando e fotografando. |
A MacDonalds entrou nesse circuito histórico pela fome e porque Jan adora hambúrgueres. Andamos pela Strand. Uma rua chamada Strand ou the Strand tinha que estar em Londres. O começo dela em Trafalgar Square realmente foi o nosso final de estrada. O nome vem do inglês antigo e significa praia, costa, margem de rio. A Strand atual segue o percurso da antiga Akeman Street, estrada romana que corria paralelamente ao rio. Na idade média era a principal rota de ligação entre a cidade de Londres (City of London), centro comercial e civil da Inglaterra e a cidade de Westminster, centro político nacional. Incrível como seguimos os caminhos antigos e usuais desdes priscas eras.
No caminho também paramos para fotografar o edifício palácio da Justiça (The Royal Courts of Justice). O estilo é gótico vitoriano e a construção data de 1882.
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| St. Mary le Strand. |
Nesse andar pensamos: a igreja finalmente. E não era. Era uma igreja sim, a igreja de St. Mary le Strand. Sua fundação data do século XIII, dedicada à St. Mary and the Innocents, mas a construção vista atualmente é do século XVIII. Quase foi demolida no século passado, século XX, para permitir o alargamento da Strand. A igreja fica realmente num estreitamento fenomenal da avenida, quase no meio da rua, o que gera sua especial beleza, com uma fachada de ornamentação barroca. Ainda no caminho paramos para fotos na frente do Hotel Savoy.
Afinal quem não tem esse famoso hotel na imaginação? Quem não sabe que esse é também um símbolo de luxo nessa cidade espetacular, gloriosa, original, tradicional, cheia de histórias e estórias, moderna nas ideias e culturalmente efervescente?
O Hotel Savoy também fica na Strand e data de 1889. Foi o primeiro do grupo Savoy, construído por Richard D'Oyly Carte, primeiro hotel de luxo britânico, moderno porque introduziu luz elétrica, elevadores movidos a eletricidade, banheiros em quase todos os quartos, água corrente quente e fria nas suas torneiras. César Ritz foi seu gerente, fundador depois de outra cadeia de hotéis de luxo.
O Savoy sob sua reg6encia foi um sucesso imediato com uma clientela famosa, sucesso atribuído ao gênio de César Ritz e seu brilhante chef, Auguste Escoffier, que apresentou aos ingleses a culinária francesa, incluindo aí a famosa sobremesa Pêche Melba. Por curiosidade esse prato foi criado para a soprano australiana Nellie Melba.
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| Uma foto querendo ser famosa. |
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| A anterior com passantes curiosos. |
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| St. Martin-of-the-Field. |
Finalmente a igreja. Tão excitada que nem fotografei. Essa foto é da Wikipédia.
Fomos até a igreja pegar os tickets – Jan Kremer - com um
endereço londrino. Voltamos para casa e esperamos para a hora do concerto.
Sabiamente porque poderíamos ter nos perdido. Se não tivéssemos ido lá
certamente não chegaríamos a tempo.
Essa é uma igreja anglicana também dedicada a Saint martin of Tours, desde o período medieval. O prédio atual foi erguido num estilo neoclássico, projeto de James Gibbs entre 1722 e 1726.
Para mim essa igreja era símbolo de Sir Neville Marriner da Academy of St.Martin-in-the Field, símbolo de música de câmara barroca num dos tons mais vibrantes e alegres que já ouvi. O grupo tem esse nome por causa da igreja onde o primeiro concerto foi realizado em 13 de novembro de 1959.
Escavações na igreja em 2006 descobriram uma tumba romana de 410 AD (Anno Domini, em português, DC), interessante porque amplia os domínios romanos em Londres e refere a igreja a um sítio cristão, provavelmente um templo pagão anteriormente.
A história de londres cansa de tantas datas e acontecimentos antigos.
A igreja é muito visitada pelos seus concertos na hora do almoço ou à noite, algumas vezes à luz de velas, em geral com o "The Academy of St. Martin-in-the-Fields Chamber Ensemble", grupo considerado um dos melhores do mundo.
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| Cripta-café da igreja St.Martin-in-the-Field. |
Falando do uso moderno de espaços é notável saber do uso contínuo de uma igreja como sede de concertos, vários por dia. E um exemplo ainda mais curioso é a cripta da igreja, masi que bela, mais que perfeita, que hospeda um café e concertos de jazz.
Já mandei o programa do concerto mas foi uma pena que pela
primeira vez não tinha minha inseparável câmera para registrar o espetáculo, a
igreja, as pessoas, a orquestra, as velas acesas de verdade no altar. Foi
maravilhoso, retumbante, espetacular.
Um dia inesquecível, um concerto inesquecível no qual pensei
o tempo todo em vocês e em Ana e Rafael que sempre organizaram concertos em
igrejas. O Ensemble de Londres faz uma enorme quantidade de concertos por ano,
alguns de graça na hora do almoço, alguns à noite à luz de velas. Sempre
barrocos. No próximo está programado Bach, três dos concertos de Brandeburgo.
Pena que não estaríamos mais lá.
Pena que acabou antes da hora de acabar, quer dizer, o tempo
passou muito veloz.
Voltamos para outra noite – não encontro um adjetivo
especial para outra noite em Londres. Outra noite londrina? Outra noite
acolhedora? Outra noite nesse lugar de sonhos? Simplesmente outra noite
registrada na memória para sempre.
Como agora, que depois de um jantar para um casal de amigos, estou sentada na minha secretária em Arnhem, ouvindo um concerto de Chopin
enquanto Jan arruma a cozinha e se diverte com um politico bêbado dando
entrevista numa rádio em holandês! Como é difícil entender algo dessa lingual
gutural.
Espero que um dia possa entender melhor. Posso até ler um
pouco, já não é sem sentido o que leio nas ruas, em revistas e jornais. Tem
jornal de graça no metrô e em todo lugar.
Estou escrevendo detalhadamente apenas para não esquecer
tudo que está acontecendo.
2 - Southwark Cathedral: do lado de fora dessa catedral anglicana encontra-se uma placa dizendo: "Na sua frente encontra-se a mais antiga igreja gótica em londres, reconstruída em 1212, depois que um incêndio danificou severamente a igreja, então no estilo normando. É um lugr de adoração há mais de 1400 anos, primeiramente como um convento saxão, provavelmente fundado no ano 606.
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