domingo, 22 de novembro de 2015

MADRID: TERCEIRO DIA.

MADRID - TERCEIRO DIA - 18/11/2009.

A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias. Isso disse Fernando Pessoa e isso estou vivendo eu todos os dias, aqui em Madrid. Nesse dia almoçamos juntos eu, o chefe do serviço de Medicina Nuclear da Clínica Luz e a minha amiga Dra. María da Paz Madariaga Unceta-Barrenechea, com um belo nome espanho, que esteve comigo todos os dias no trabalho.
Dr. José Luis Carreras Delgado, catedrático de Medicina Nuclear, acadêmico da Real Academia Nacional de Medicina, pesquisador com vasto currículo é também um conhecedor e um amante da boa comida espanhola. Além dos conhecimentos em PET-CT ele providenciou esse lauto banquelte espanhol, com o melhor presunto cru da espanha e mais especialidades da casa.
Dr. José Luis Carreras Delgado.
Dra. Maria da Paz Madariaga.
Um dos biomédicos do serviço.
Morcilla de burgos e jamón ibérico juntos.
O restaurante escolhido ficava bem perto da clínica e fomos andando até lá, o El Horno Asador. Não lembrava do nome mas os recursos da internet facilitaram encontrar não somente o restaurante mas o menu e as delícias típicas que experimentei nesse dia de festa. Era uma quarta, meio da semana de trabalho, mas o dia em que Dr. José Luis poderia nos levar para essa confraternização.






Primeiro experimentei um prato local, a "morcilla de Burgos" que ele falou que era deliciosa mas que relutei em provar. Um embutido a base de sangue de porco e arroz, típico da cozinha burgalesa. Um bolinho negro, picante e gordurento mas gostoso.

Em seguida como entrada também o mais que delicioso Jamón ibérico, feito com porcos da raça ibérica, porcos semelhantes aos porcos pretos de Portugal, que só se alimentam de pinhão e por isso tem uma enorme quantidade de gordura infiltrada nos tecidos. Apesar da alimentação restrita esse porcos são criados livres, em grandes espaços onde podem fazer exercícios. O presunto é curado por cerca de 8 a 36 meses, dependendo do tamanho da peça e da quantidade de pinhão que ingeriram. Um artigo da cozinha de alto luxo gastronômico. Não foi o ponto alto da refeição porque em seguida experimentei uma das melhores lagostas que já comi. Arroz com bogavante. Esse é sublime.
Delícia da cozinha espanhola. E vinho tinto.
O presunto é curado por cerca de 8 a 36 meses, dependendo do tamanho da peça e da quantidade de pinhão que ingeriram. Um artigo da cozinha de alto luxo gastronômico. Não foi o ponto alto da refeição porque em seguida experimentei uma das melhores lagostas que já comi. Arroz com bogavante. Esse é sublime.
Servindo o arroz com bogavante.
Bem feito é sublime. Arroz molhado no molho marinheiro com sabor de mariscos. E a lagosta e sua cabeça inteira esperando para ser saboreada, chupada, mastigada, sugada até o último gostinho. Li numa reeita de arroz com bogavante que esse prato tem que ser saboreado pelo menos uma vez na vida.
Por que bogavante e não lagosta? São da mesma família mas de espécies diferentes. A lagosta, langosta em espanhol, langouste em francês ou spiny lobster em inglês é a Palinurus elephas e mais umas dez diferentes em diferentes partes do mundo.
Bogavante em espanhol, homard em francês e clawed lobster em inglês é homarus. Homarus gammarus na Europa e Homarus americanus no Maine.
Não sei como chamar em português mas a bogavante tem duas grandes patas e a lagosta uma só. A bogavante também é comum e muito famosa no Maine.
A bogavante já no meu prato.

Um brinde à vida e ao que me espera sempre.
Lembro que amei esse dia de confraternização e muita conversa, de comida espetacular e vinho. Andei para a estação de metrô próxima, acho que chamada Guzmán el Bueno e fui então para o hotel meu refúgio no fim do dia, para jantar, falar com Jan, dormir e sonhar ou sonhar e enquanto sonhando dormir.

Metrô em Madrid em vez de taxis.

Outra foto da estação do metrô.

Hotel AC Los Vascos, restaurante.

Mesmo hotel, meu local de recolhimento.





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sábado, 21 de novembro de 2015

MADRID: SEGUNDO DIA

MADRID - SEGUNDO DIA - 1711/2009.

Acordar em Madrid com dois grandes entusiasmos de vida é quase sonhar. Estar em Madrid e fazer um treinamento para PET-CT e estar em Madrid a caminho da Holanda. PET-CT era um velho desejo de modernidade e de nova tecnologia, a que revolucionou no mundo o enfoque para pessoas com câncer. Foram anos de luta na minha terra natal. Estar a caminho da Holanda já expliquei que era um misto de ansiedade e paixão, um gosto de aventura, uma certeza interior de que seria ótimo. Nem um resquício de medo porque me considerava prudente e segura do que queria.
Fachada da Clínica La Luz.
O estágio espanhol foi na Clínica La Luz, um belo prédio para um serviço de atendimento clínico e de diagnóstico. A estadia lá foi perfeita assim como meu período de trabalho. Começava cedo mas terminava às quatro da tarde o que me dava tempo livre para andar e visitar belos lugares.
Em cada cidade o que mais gosto é de andar sem destino e de me sentir deslumbrada com as descobertas. Claro, tenho um roteiro mas também tenho o não roteiro.
Clínica La Luz, Madrid.
Acho o espanhol falado na Espanha mais difícil de entender que o da América Latina pela alta velocidade na fala e pelo acento típico. Mas consigo conversar com aquela mistura de portunhol, português falado devagar e inglês quando necessário. A clínica era relativamente perto do meu hotel, Hotel AC Los Vascos, no distrito de Moncloa, uma área perto do centro mas rodeada de verde.
Mas não é de trabalho ou treinamento que interessa falar mas sim do que fazia nas horas livres nessa linda cidade que é Madrid.
Palácio de Cibeles.
Sempre vou primeiro para o centro da cidade e cheguei então na Plaza de Cibeles, rodeada de avenidas  muito movimentadas, quando à minha frente, nesse andar sem roteiros, surge o belo Palácio de Cibeles. O palácio e sua fonte são monumentos simbólicos de Madrid. O Palácio foi construído em 1909 como sede do serviço postal e em 2007 tornou-se  a sede da prefeitura (Ayuntamiento) de Madrid.  O prédio é novo em relação à praça cujo local na Renascença separava a parte urbana da cidade de seus monastérios e palácios. A fonte de Cibeles está situada num desses antigos passeios, chamado hoje Paseo de Recoletos.


Palácio de Cibeles e à esquerda o Palácio de Linares.
Lembro perfeitamente do meu sentimento meio perplexo nesse cruzamento em frente à praça esperando para atravessar a avenida, segurando meio desajeitadamente minha câmara, ainda não tão usada em fotos de viagens solitárias. 
A fonte de Cibele tem o nome de uma deusa dos romanos.  Sentada numa carruagem puxada por dois leões foi construída muito antes do Palácio, no reinado de Carlos III entre 1777 e 1782. O local da fonte é usado pelos torcedores do Real Madrid para comemorar suas vitórias.
Cibele era uma deusa originária da Frígia, chamada de Mãe dos Deuses e cultuada na Grécia Antiga e em Roma. Sempre é representada com uma coroa de muralhas na cabeça, com leões por perto ou puxando seu carro, simbolizando seu poder militar de arrasadora de cidades. E de protetora.
Estava ali no caminho para o Museu do Prado e segui andando pela mais que prazeirosa avenida que leva ao museu, chamada Paseo del Prado. Uma bela alameda cercada de jardins dos dois lados, passeios para os passantes, com muito verde, canteiros bem desenhados, árvores, arbustos floridos, locais para parar. Desejei estar de mãos dadas com meu sonhado e idílico amor. Parava para tirar fotos dos locais. Tirei algumas fotos de mim mesma quando encontrei um casal simpático de meia idade, uma meia idade maior que a minha, que perguntou se queria que tirassem minhas fotos. Adorei e caminhamos juntos até o museu eu e eles para alguma exposição em torno.
A bela Calle de Alcalá.

A Calle de Alcalá estava em algum lugar do caminho entre a praça e o trajeto para o museu do Prado e nem sei em que exato momento estive lá ou porque parei para fotografar. Provavelmente pela maneira original de se colocar uma placa de rua.
Mas o edíficio construído dentro desse muro gradeado cercado por jardins é o Palácio de Buenavista, próximo à Praça de Cibeles. Desde 1847 é o quartel general do exército despanhol. Na época de palácio abrigou várias pinturas famosas de Velázquez, Rafael e Correggio e poderia ter sido a sede do Museu do Prado. A Madonna de Alba de Rafael, obra que esteve lá por vários anos, deve seu nome à família de Alba, à Casa de Alba que construiu esse palácio no século XVIII. Esse quadro hoje está na National Gallery of Art, em Washington D.C..





Paseo del Prado e a fonte de Apolo.


As cidades da Europa me encantam pelas belas ruas e largas avenidas numa demonstração excepcional de planejamento urbano. Como adaptar antigas vilas e cidades de antanho à modernidade sem perder o charme, os monumentos, os palácios e além de tudo sabendo acrescentar jardins bem cuidados que trazem vida e calor ao local. Posso andar horas sem cansar saboreando a beleza de cada recanto. São incontáveis as avenidas e parques como esses em Madrid em outros países, onde me perco com prazer e me acho nas lembranças e nas fotos. 


Esse lindo passeio é o jardim histórico mais antigo de Madrid e uma de suas avenidas mais importantes. Essa caminhada leva ao Museu do Prado, que queria visitar, mas também leva ao Museu Thyssen-Bornemisza e bem próximo ao Centro de Arte Rainha Sofia. Os três centros formam o Triângulo da Arte. No meio do caminho encontramos fontes e a entrada do real Jardim Botânico. Lembrei que o simpático casal fotógrafo estava indo ao Museu Thyssen-Bornemisza e que nos separamos ao avistarmos os dois museus.
Já posando para o casal simpático de espanhóis.

Uma pequena fonte, um lindo canteiro, uma fonte famosa, a fonte de Apolo, a fonte de Netuno. As três monumentais fontes, a de Cibeles, a de Netuno que não fotografei e a de Apolo que só fotografei como modura para minha pose, são consideradas as obras símbolo do neoclassicismo espanhol. Posso descrever a mim mesma como uma aventureira deslumbrada de coração transbordante da alegria de estar presente no âmago da cidade e turista solitária na multidão em torno. Nunca parei para pensar que poderia estar perdida, sem comunicação fácil, ser atropelada, sofrer um acidente, fraturar o colo do fêmur.
Pensava só em como fazer o tempo andar rápido e bem aproveitado à espera do encontro em Arnhem para o qual estava preparada por mais de seis meses.
A base da fonte de Apolo.
Jardins e fontes no passeio.

Encontrando flores e decoração de Natal aparecendo.

Aqui em Madrid sabia o que estava encontrando, paisagens e vida. Em Arnhem não saberia dizer do meu comportamento, do dele, de nossas impressões mútuas e novas pelo tato e pela visão. Mas não perdi tempo pensando nisso porque meu coração estava aberto para os acontecimentos. Lembrei de um belo poema de Cecília Meirelles sobre a arte da felicidade. Que tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino, e eu que me sinto completamente feliz. Porque tudo está em seu lugar exceto eu que estou perdida em Madrid, embalada em sonhos. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Acho que é preciso escancarar as janelas para o mundo e abrir a porta para sair de nossos pequenos espaços rotineiros.
Finalmente estava na frente do Museu do Prado, que visitei meio corrido, mas quem quer passar horas vendo museus e quadros que conhecemos de leitura e que estarão certamente lá em outra visita. O que vi ficou gravado memória. Não pensem que não gosto de museus quando já passei dias andando nos jardins e na Casa de Rodin em Paris ou na Casa de Monet em Giverny, fora todos os outros museus convencionais que visitei incluindo os nossos brasileiros. 
Mas quando a vida é bela e lhe coloca a armadilha de um amor maduro o pensamento está muito mais ligado nessa expectativa e nesse pensar. As coisas fluem, passam e ficam para a minha posteridade, como agora em que escrevo e rememoro esses momentos.

Claro que vi Velázquez nas meninas com saias armadas, as Majas nua e vestida de Goya ou as Três Graças de Rubens. Os trios me atraem porque retratam a mim e minhas irmãs as Trianas, como meu pai nos chamava. Mas sempre me apaixono por coisas novas e dessa vez foram Hieronymus Bosch, o fascinante Jardim das Delícias Terrenas, um tríptico representando os prazeres terrenos da carne, o paraíso e o inferno. E de Goya "Perro semihundido". Faz parte de um conjunto de obras de Goya chamadas de Pinturas Negras, pelo uso de pigmentos escuros e pelos temas sombrios. Essas cenas são afrescos e estavam na Quinta del Sordo, casa de campo fora de Madrid, adquirida por Goya em 1819.
Essa representa um cão lutando contra a corrente e tenho um postal desse quadro em frente da minha mesa de trabalho.
Chegando ao Museu do Prado.
Adoro visitar as lojas dos museus para comprar postais reproduções dos quadros que gosto, cadernetas que Jan adora e outras pequenas lembranças.
Minha casa é composta também desses pequenos achados.
O museu foi planejado em 1785 e inaugurado um reinado depois, em 1819 para mostrar a arte espanhola e dizer ao mundo que ela era de igual quilate a dos outros países. Não lembro quanto tempo passei lá mas seguramente não tempo demais porque museus tem hora para fechar.


Fachada do museu.

Em torno do museu encontramos esculturas, marcando as entradas do edifício, uma na entrada principal dedicada a Diego Velázquez, outra a Francisco de Goya, no chamado Goya Gate, uma terceira de Bartolome Murillo no Murillo Gate em frente ao Jardim Botânico e a mais recente chamada de Jerónimos Gate em frente à igreja do mesmo nome. Como o Louvre, o Prado tem um anexo moderno em forma de cubo, todo de tijolos, que hospeda um claustro da Renascença. Daonde o nome Prado? De prado mesmo, no significado de campo, meadow, referência ao local da construção primordial.
Goya Gate e jardins.
Todas essa fotos foram tiradas antes de entrar no museu pela entrada de Goya. E esse ambiente é lindo fervilhante de jovens, casais,  turistas, pessoas tocando para ganhar a vida dessa maneira quase simplória e artística.
Para mim visitar museus inclui olhar a fachada, tirar fotos, ver as pinturas e esculturas menos conhecidas, andar nos jardins em volta, visitar a loja, comer no restaurante ou cafeteria. Adoro esses restaurantes que sempre transmitem arte e bom gosto e claro que fui direto à cafeteria, para experimentar um divino pão com jambón. Ainda posso ver na foto a conta do chocolate quente e do sanduíche chamado de bocadillo mas que era bem grandinho na foto: 6,45 euros. O Café Prado fica no anexo moderno cubóide do museu.






Turistas passeando e a igreja ao fundo.
Vi também a igreja de San Jerónimo el Real junto ao museu. Essa igreja remonta ao início do século XVI quando o Brasil foi descoberto e é o remanescente do monastério Hieronymite. Conectada à monarquia pela proximidade real ao palácio e pelo santo real foi cenário de muitas coroações. Construída no estilo gótico manuelino sofreu várias reformas, a última no século XIX. É bem maior e bem mais gótica do que parece na foto se vista pela lateral.
Igreja de San Jerónimo el Real.

Músico no parque.

Café Prado no anexo moderno do museu.
Ainda o café com uma decoração linda.
Belo!
Meu sanduíche, el bocadillo.

Saí do museu e do café à noite e amei a vista da igreja iluminada. Senti prazer de estar ali e de estar viva, de aproveitar essa viagem ao máximo, de não pensar e só me divertir mesmo sozinha. Voltava sempre relativamente cedo ao hotel porque não sou uma mulher noturna e porque ainda falava com Jan. Afinal estávamos pela primeira vez no mesmo fuso horário e podíamos falar todo dia, eu sempre no café/ bar do hotel, divertida com a viagem, a conversa,  os preparativos para o encontro. Com uma bela taça de vinho na mão para celebrar.

Putra vista da igreja iluminada.
O Palace Hotel à noite.
Na rua esperando um táxi de volta ao hotel.

















1 - Foto do jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch.




















2 - "Perro semihundido" de Francisco de Goya.




3 - Cecília Meireles: A arte de ser feliz.

"Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."
Cibeles_con_Palacio_de_Linares_closeup.jpg

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

MADRID: PRIMEIRO DIA

MADRID - PRIMEIRO DIA - 16/11/2009.

Viajar! Perder países!

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
Fernando Pessoa.
A página inicial do Second Life hoje.
Preciso começar minha história do início, quando comecei um jogo virtual chamado Second Life. Morando sozinha chegava em casa à noite e fiquei fascinada por esse ambiente de comunicação social no qualvocê cria um avatar e constrói seu mundo particular. O jogo é fascinante e seria assunto de muitas páginas. Comecei a jogar em 31 de agosto de 2008 e meu avatar chamava-se yuli Larnia.
Conheci muitas pessoas interessantes das quais muitas são minhas amigas até hoje. Artistas, escritores, pessoas comuns, pessoas com incapacitação fisica, pessoas que buscam companhia para horas de solidão. Uma parte interessante desse ambiente virtual é o treinamento de outros idiomas, especialmente inglês. Era uma jogadora iniciante. Um grande ponto de encontro nessa época e ainda agora eram os clubes de dança com música ambiente de qualidade e possibilidade de conversas e de danças. Num desses clubes conheci Jan Kremer. Primeiro conversando sobre tudo e nada. Falando de arte, de música de literatura. Um dia ele me falou quem era, holadês, jornalista, escritor, apaixonado por Portugal desde que frequentou a Herdade da Marmeleira no Alentejo, mais exatamente a fundação Obras, onde escreveu um de seus livros. Acrescentou que tinha uma casa em Portugal onde passava férias em Évora Monte. Soube da minha vida mas não do meu nome completo. Todos os dias nos encontrávamos, todas as noites até tarde, muito mais para ele que chegava sonolento ao trabalho. Em meados de outubro, estava a trabalho num hotel em Fortaleza. Meu computador lento não permitia dançarmos. Falei disso, ele perguntou o nome do hotel, sabia meu nome e ligou logo em seguida.
A conversa mais banal e deliciosa do mundo. Se eu falava inglês, se gostava de Mario Vargas Llosa e outros assuntos banais que a emoção não me permite lembrar.
Desde então passamos a nos falar por telefone, algumas vezes pelo Skype. Por algum tempo no Second Life. Ele deixou o jogo e eu fiquei até bem pouco tempo atrás. pelos amigos e pelas delícias das atividades possíveis. Trocamos fotos. Passei quase um ano me preparando para um encontro em algum lugar da Europa. Essa oportunidade aconteceu em 2009, quando tive a chance de fazer um estágio de treinamento de trabalho num hospital em Madrid.
De Madrid seguiria para a Holanda onde nos encontraríamos em sua cidade, Arnhem. Uma aventura planejada mas não desconhecida. Sabia da vida dele, falávamos a qualquer hora, conhecia seus amigos, tinha assistido um video da televisão holandesa sobre ele quando do lançamento de seu livro em 2007.
Era e sou uma mulher independente e acostumada a viajar sozinha para congressos nacionais e internacionais. Topei a aventura embora sob protestos de parte da minha família.

Dia 15 de novembro de 2009 embarquei num vôo da TAP para Madrid levando na bolsa o passaporte e a coragem misturada com uma bela pitada de sonho e de amor. Porque já amava profundamente esse homem amigo e interessante que hoje é meu companheiro.
Paellas na Calle de la Salud.
Emblemático que indo a Madrid para um estágio e treinamento em PET-CT em oncologia tenha no primeiro dia de passeio , após a rotina do hospital, parado para almoçar na Rua da Saúde: Calle de la Salud. Andando a toa achei essa rua que fica entre a Gran Vía e a Calle del Carmen. Esse nome não significa que hajá lá uma fonte milagrosa, uma água benta na igreja que cure todos os achaques nem que todos seus moradores e passantes sejam assim saudáveis.
Igreja de Nossa Senhora de Carmen.





A igreja no lado da Calle de la Salud.
















O nome remonta ao século XV, época de uma epidemia da Peste Negra, em Madrid, no período dos Reis católicos. A cidade era muito menor e nesse local haviam quatro casas apenas, cujos moradores resistiram à doença, provavelmente porque moravam nessa zona mais limpa e higiênica. Os colonos nessa área cultivavam sua comida, tinham fonte de água independente e não se misturaram a outras pessoas. Alguns séculos depois essa área era um bairro, chamado bairro da Saúde e se o bairro não existe mais a rua manteve o nome de recordação.
Minha bela paella com vinho rosé.
Nesse lugar de saúde comi a primeira e mais deliciosa paella madrilenha.

O restaurante ficava exatamente em frente a um dos lados da Igreja de Nossa Senhora del Carmen, situada na Calle del Carmen, que faz esquina com a rua da Saúde. A igreja é a parte sobrevivente do antigo convento das religiosas carmelitas, fundado em 1575.

O restaurante escolhi ao acaso. Nenhuma recomendação. Apenas a placa com a foto de uma paella me atraiu. Poderia ter escolhido um lugar recomendado, mas gosto de para ao acaso e de acordo com minhas impressões de momento. E a comida foi deliciosa. E o vinho que era da casa e não escolhi. Só tomo vinho rosé quando paro para almoçar em viagens.A Taberna Galache não tem boa avaliação no Trip Advisor. mas quem se preocupa com opiniões de outras pessoas quando a vida é boa e a alma canta?

Tudo na Europa é tão antigo e tão esplendoroso. Meu coração palpitava de ansiedade, não sabia como esperar pelas horas da chegada a Arnhem.
Mas estava decidida e aproveitar minha viagem em todos os aspectos.

Foto tirada do Google Earth.
Nessa viagem inventei a selfie com câmara, usando espelhos. Como podia provar que estava realmente na Europa, em Madrid ou depois em Amsterdam. Daí nasceu minha paixão por selfies. Nesse dia tirei as selfies no hotel em que estava hospedada.

Não me lembro de ter pensado nem por um minuto que estava errada ou que o encontro não ia funcionar. Apesar de já apaixonada nosso relacionamento era de amizade e pensava sempre que gostaria dele como uma amigo. Não pensei em amor, ilusões ou desilusões. Apenas em desfrutar bons momentos em excelente companhia, o que já estava fazendo virtualmente todos os dias.

Nesse primeiro dia estava entusiasmada, fui de táxi do hotel para o hospital e nos outros dias de metrô. Não tirei muitas fotos porque era o dia de reconhecimento. No hotel sempre comi presunto serrano no jantar e no café da manhã. Abusei e amei.

Dormi regalada e absolutamente contente com os acontecimentos que viriam. Dia a dia. Contava os dias e pedia a mim mesma paciência. De noite comentava o dia com Jan que pelo menos não dormia tão tarde já que estávamos pela primeira vez no mesmo fuso horário.
Foto para mostrar que estava em Madrid.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

LONDRES: SEXTO DIA

Jantar de despedida em Portobello Road.
Falta contar o último dia em Londres. Acordamos cedo com as malas quase prontas. Sempre tomamos dois pequenos cafés expressos e mais nada. Esse termina sendo meu hábito com Jan.











Providenciando um taxi para o aeroporto.
Ele já tinha providenciado um taxi para 8 horas ou um pouco mais. Nos despedimos da proprietária do nosso apartamento. Escrevemos no livro para hóspedes. Claro, Jan tocou no tamanho do banheiro com um chuveiro minúsculo. Se nos mexíamos no chuveiro ou a água parava, ou ficava fria. Ou muito quente. Imaginem um box do tamanho de um quarto de um box normal! 
Mas o apartamento era tão lindo, sempre com flores em todos os cômodos, com um jardim inglês dando para o quarto principal.







Texto no livro de hóspedes.
O motorista de taxi era uma figura. Da Nigéria, tinha morado na Alemanha. Falava holandês mas também alemão com Jan. Nunca vi um motorista conversar tanto, sobre tudo, política, educação, Brasil, Rio de Janeiro, Carnaval. Seu sonho é vir para o Carnaval no Rio. Na realidade ele era um enorme negro, de boa aparência, muito sério e trabalhador. Estudando para se formar. Jan tem a capacidade que admiro de conversar com todas as pessoas, de modo que o tempo passou rápido. Em Londres, guiando para o Heathrow, ou hoje, quarta-feira, aqui em Arnhem, com duas noites mais para embarcar para Israel.


Estava gelada Londres e aí Jan pegou a gripe que até agora está fazendo ele se sentir mal. Pensei que estaria bom hoje, mas não. Nem fomos a Zutphen e ele quase que passou o dia todo deitado. Sem fome. Um dia totalmente atípico.

Foram dias maravilhosos e umas férias maravilhosas. 
Não preciso dizer muito porque as fotos falam mais do que palavras.



No aeroporto de Heathrow.
Portobello Road no bar em Heathrow.

Nosso destino Arnhem: casa 48.

Chegando em casa.

Entrada da casa: a escadinha.