MADRID - SEGUNDO DIA - 1711/2009.
Acordar em Madrid com dois grandes entusiasmos de vida é quase sonhar. Estar em Madrid e fazer um treinamento para PET-CT e estar em Madrid a caminho da Holanda. PET-CT era um velho desejo de modernidade e de nova tecnologia, a que revolucionou no mundo o enfoque para pessoas com câncer. Foram anos de luta na minha terra natal. Estar a caminho da Holanda já expliquei que era um misto de ansiedade e paixão, um gosto de aventura, uma certeza interior de que seria ótimo. Nem um resquício de medo porque me considerava prudente e segura do que queria.
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| Fachada da Clínica La Luz. |
O estágio espanhol foi na Clínica La Luz, um belo prédio para um serviço de atendimento clínico e de diagnóstico. A estadia lá foi perfeita assim como meu período de trabalho. Começava cedo mas terminava às quatro da tarde o que me dava tempo livre para andar e visitar belos lugares.
Em cada cidade o que mais gosto é de andar sem destino e de me sentir deslumbrada com as descobertas. Claro, tenho um roteiro mas também tenho o não roteiro.
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| Clínica La Luz, Madrid. |
Acho o espanhol falado na Espanha mais difícil de entender que o da América Latina pela alta velocidade na fala e pelo acento típico. Mas consigo conversar com aquela mistura de portunhol, português falado devagar e inglês quando necessário. A clínica era relativamente perto do meu hotel, Hotel AC Los Vascos, no distrito de Moncloa, uma área perto do centro mas rodeada de verde.
Mas não é de trabalho ou treinamento que interessa falar mas sim do que fazia nas horas livres nessa linda cidade que é Madrid.
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| Palácio de Cibeles. |
Sempre vou primeiro para o centro da cidade e cheguei então na Plaza de Cibeles, rodeada de avenidas muito movimentadas, quando à minha frente, nesse andar sem roteiros, surge o belo Palácio de Cibeles. O palácio e sua fonte são monumentos simbólicos de Madrid. O Palácio foi construído em 1909 como sede do serviço postal e em 2007 tornou-se a sede da prefeitura (Ayuntamiento) de Madrid. O prédio é novo em relação à praça cujo local na Renascença separava a parte urbana da cidade de seus monastérios e palácios. A fonte de Cibeles está situada num desses antigos passeios, chamado hoje Paseo de Recoletos.
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| Palácio de Cibeles e à esquerda o Palácio de Linares. |
Lembro perfeitamente do meu sentimento meio perplexo nesse cruzamento em frente à praça esperando para atravessar a avenida, segurando meio desajeitadamente minha câmara, ainda não tão usada em fotos de viagens solitárias.
A fonte de Cibele tem o nome de uma deusa dos romanos. Sentada numa carruagem puxada por dois leões foi construída muito antes do Palácio, no reinado de Carlos III entre 1777 e 1782. O local da fonte é usado pelos torcedores do Real Madrid para comemorar suas vitórias.
Cibele era uma deusa originária da Frígia, chamada de Mãe dos Deuses e cultuada na Grécia Antiga e em Roma. Sempre é representada com uma coroa de muralhas na cabeça, com leões por perto ou puxando seu carro, simbolizando seu poder militar de arrasadora de cidades. E de protetora.
Estava ali no caminho para o Museu do Prado e segui andando pela mais que prazeirosa avenida que leva ao museu, chamada Paseo del Prado. Uma bela alameda cercada de jardins dos dois lados, passeios para os passantes, com muito verde, canteiros bem desenhados, árvores, arbustos floridos, locais para parar. Desejei estar de mãos dadas com meu sonhado e idílico amor. Parava para tirar fotos dos locais. Tirei algumas fotos de mim mesma quando encontrei um casal simpático de meia idade, uma meia idade maior que a minha, que perguntou se queria que tirassem minhas fotos. Adorei e caminhamos juntos até o museu eu e eles para alguma exposição em torno.
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| A bela Calle de Alcalá. |
A Calle de Alcalá estava em algum lugar do caminho entre a praça e o trajeto para o museu do Prado e nem sei em que exato momento estive lá ou porque parei para fotografar. Provavelmente pela maneira original de se colocar uma placa de rua.
Mas o edíficio construído dentro desse muro gradeado cercado por jardins é o Palácio de Buenavista, próximo à Praça de Cibeles. Desde 1847 é o quartel general do exército despanhol. Na época de palácio abrigou várias pinturas famosas de Velázquez, Rafael e Correggio e poderia ter sido a sede do Museu do Prado. A Madonna de Alba de Rafael, obra que esteve lá por vários anos, deve seu nome à família de Alba, à Casa de Alba que construiu esse palácio no século XVIII. Esse quadro hoje está na National Gallery of Art, em Washington D.C..
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| Paseo del Prado e a fonte de Apolo. |
As cidades da Europa me encantam pelas belas ruas e largas avenidas numa demonstração excepcional de planejamento urbano. Como adaptar antigas vilas e cidades de antanho à modernidade sem perder o charme, os monumentos, os palácios e além de tudo sabendo acrescentar jardins bem cuidados que trazem vida e calor ao local. Posso andar horas sem cansar saboreando a beleza de cada recanto. São incontáveis as avenidas e parques como esses em Madrid em outros países, onde me perco com prazer e me acho nas lembranças e nas fotos.
Esse lindo passeio é o jardim histórico mais antigo de Madrid e uma de suas avenidas mais importantes. Essa caminhada leva ao Museu do Prado, que queria visitar, mas também leva ao Museu Thyssen-Bornemisza e bem próximo ao Centro de Arte Rainha Sofia. Os três centros formam o Triângulo da Arte. No meio do caminho encontramos fontes e a entrada do real Jardim Botânico. Lembrei que o simpático casal fotógrafo estava indo ao Museu Thyssen-Bornemisza e que nos separamos ao avistarmos os dois museus.
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| Já posando para o casal simpático de espanhóis. |
Uma pequena fonte, um lindo canteiro, uma fonte famosa, a fonte de Apolo, a fonte de Netuno. As três monumentais fontes, a de Cibeles, a de Netuno que não fotografei e a de Apolo que só fotografei como modura para minha pose, são consideradas as obras símbolo do neoclassicismo espanhol. Posso descrever a mim mesma como uma aventureira deslumbrada de coração transbordante da alegria de estar presente no âmago da cidade e turista solitária na multidão em torno. Nunca parei para pensar que poderia estar perdida, sem comunicação fácil, ser atropelada, sofrer um acidente, fraturar o colo do fêmur.
Pensava só em como fazer o tempo andar rápido e bem aproveitado à espera do encontro em Arnhem para o qual estava preparada por mais de seis meses.
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| A base da fonte de Apolo. |
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| Jardins e fontes no passeio. |
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| Encontrando flores e decoração de Natal aparecendo. |
Aqui em Madrid sabia o que estava encontrando, paisagens e vida. Em Arnhem não saberia dizer do meu comportamento, do dele, de nossas impressões mútuas e novas pelo tato e pela visão. Mas não perdi tempo pensando nisso porque meu coração estava aberto para os acontecimentos. Lembrei de um belo poema de Cecília Meirelles sobre a arte da felicidade. Que tudo
está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino, e eu que me sinto completamente feliz. Porque tudo está em seu lugar exceto eu que estou perdida em Madrid, embalada em sonhos. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Acho que é preciso escancarar as janelas para o mundo e abrir a porta para sair de nossos pequenos espaços rotineiros.
Finalmente estava na frente do Museu do Prado, que visitei meio corrido, mas quem quer passar horas vendo museus e quadros que conhecemos de leitura e que estarão certamente lá em outra visita. O que vi ficou gravado memória. Não pensem que não gosto de museus quando já passei dias andando nos jardins e na Casa de Rodin em Paris ou na Casa de Monet em Giverny, fora todos os outros museus convencionais que visitei incluindo os nossos brasileiros.
Mas quando a vida é bela e lhe coloca a armadilha de um amor maduro o pensamento está muito mais ligado nessa expectativa e nesse pensar. As coisas fluem, passam e ficam para a minha posteridade, como agora em que escrevo e rememoro esses momentos.
Claro que vi Velázquez nas meninas com saias armadas, as Majas nua e vestida de Goya ou as Três Graças de Rubens. Os trios me atraem porque retratam a mim e minhas irmãs as Trianas, como meu pai nos chamava. Mas sempre me apaixono por coisas novas e dessa vez foram Hieronymus Bosch, o fascinante Jardim das Delícias Terrenas, um tríptico representando os prazeres terrenos da carne, o paraíso e o inferno. E de Goya "Perro semihundido". Faz parte de um conjunto de obras de Goya chamadas de Pinturas Negras, pelo uso de pigmentos escuros e pelos temas sombrios. Essas cenas são afrescos e estavam na Quinta del Sordo, casa de campo fora de Madrid, adquirida por Goya em 1819.
Essa representa um cão lutando contra a corrente e tenho um postal desse quadro em frente da minha mesa de trabalho.
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| Chegando ao Museu do Prado. |
Adoro visitar as lojas dos museus para comprar postais reproduções dos quadros que gosto, cadernetas que Jan adora e outras pequenas lembranças.
Minha casa é composta também desses pequenos achados.
O museu foi planejado em 1785 e inaugurado um reinado depois, em 1819 para mostrar a arte espanhola e dizer ao mundo que ela era de igual quilate a dos outros países. Não lembro quanto tempo passei lá mas seguramente não tempo demais porque museus tem hora para fechar.
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| Fachada do museu. |
Em torno do museu encontramos esculturas, marcando as entradas do edifício, uma na entrada principal dedicada a Diego Velázquez, outra a Francisco de Goya, no chamado Goya Gate, uma terceira de Bartolome Murillo no Murillo Gate em frente ao Jardim Botânico e a mais recente chamada de Jerónimos Gate em frente à igreja do mesmo nome. Como o Louvre, o Prado tem um anexo moderno em forma de cubo, todo de tijolos, que hospeda um claustro da Renascença. Daonde o nome Prado? De prado mesmo, no significado de campo, meadow, referência ao local da construção primordial.
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| Goya Gate e jardins. |
Todas essa fotos foram tiradas antes de entrar no museu pela entrada de Goya. E esse ambiente é lindo fervilhante de jovens, casais, turistas, pessoas tocando para ganhar a vida dessa maneira quase simplória e artística.
Para mim visitar museus inclui olhar a fachada, tirar fotos, ver as pinturas e esculturas menos conhecidas, andar nos jardins em volta, visitar a loja, comer no restaurante ou cafeteria. Adoro esses restaurantes que sempre transmitem arte e bom gosto e claro que fui direto à cafeteria, para experimentar um divino pão com jambón. Ainda posso ver na foto a conta do chocolate quente e do sanduíche chamado de bocadillo mas que era bem grandinho na foto: 6,45 euros. O Café Prado fica no anexo moderno cubóide do museu.
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| Turistas passeando e a igreja ao fundo. |
Vi também a igreja de San Jerónimo el Real junto ao museu. Essa igreja remonta ao início do século XVI quando o Brasil foi descoberto e é o remanescente do monastério Hieronymite. Conectada à monarquia pela proximidade real ao palácio e pelo santo real foi cenário de muitas coroações. Construída no estilo gótico manuelino sofreu várias reformas, a última no século XIX. É bem maior e bem mais gótica do que parece na foto se vista pela lateral.
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| Igreja de San Jerónimo el Real. |
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| Músico no parque. |
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| Café Prado no anexo moderno do museu. |
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| Ainda o café com uma decoração linda. |
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| Belo! |
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| Meu sanduíche, el bocadillo. |
Saí do museu e do café à noite e amei a vista da igreja iluminada. Senti prazer de estar ali e de estar viva, de aproveitar essa viagem ao máximo, de não pensar e só me divertir mesmo sozinha. Voltava sempre relativamente cedo ao hotel porque não sou uma mulher noturna e porque ainda falava com Jan. Afinal estávamos pela primeira vez no mesmo fuso horário e podíamos falar todo dia, eu sempre no café/ bar do hotel, divertida com a viagem, a conversa, os preparativos para o encontro. Com uma bela taça de vinho na mão para celebrar.
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| Putra vista da igreja iluminada. |
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| O Palace Hotel à noite. |
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| Na rua esperando um táxi de volta ao hotel. |
1 - Foto do jardim das Delícias Terrenas de Hieronymus Bosch.
2 -
"Perro semihundido" de Francisco de Goya.

3 - Cecília Meireles: A arte de ser feliz.
"Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."
