Viajar! Perder países!
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
Fernando Pessoa.
Preciso começar minha história do início, quando comecei um jogo virtual chamado Second Life. Morando sozinha chegava em casa à noite e fiquei fascinada por esse ambiente de comunicação social no qualvocê cria um avatar e constrói seu mundo particular. O jogo é fascinante e seria assunto de muitas páginas. Comecei a jogar em 31 de agosto de 2008 e meu avatar chamava-se yuli Larnia.
Conheci muitas pessoas interessantes das quais muitas são minhas amigas até hoje. Artistas, escritores, pessoas comuns, pessoas com incapacitação fisica, pessoas que buscam companhia para horas de solidão. Uma parte interessante desse ambiente virtual é o treinamento de outros idiomas, especialmente inglês. Era uma jogadora iniciante. Um grande ponto de encontro nessa época e ainda agora eram os clubes de dança com música ambiente de qualidade e possibilidade de conversas e de danças. Num desses clubes conheci Jan Kremer. Primeiro conversando sobre tudo e nada. Falando de arte, de música de literatura. Um dia ele me falou quem era, holadês, jornalista, escritor, apaixonado por Portugal desde que frequentou a Herdade da Marmeleira no Alentejo, mais exatamente a fundação Obras, onde escreveu um de seus livros. Acrescentou que tinha uma casa em Portugal onde passava férias em Évora Monte. Soube da minha vida mas não do meu nome completo. Todos os dias nos encontrávamos, todas as noites até tarde, muito mais para ele que chegava sonolento ao trabalho. Em meados de outubro, estava a trabalho num hotel em Fortaleza. Meu computador lento não permitia dançarmos. Falei disso, ele perguntou o nome do hotel, sabia meu nome e ligou logo em seguida.
A conversa mais banal e deliciosa do mundo. Se eu falava inglês, se gostava de Mario Vargas Llosa e outros assuntos banais que a emoção não me permite lembrar.
Desde então passamos a nos falar por telefone, algumas vezes pelo Skype. Por algum tempo no Second Life. Ele deixou o jogo e eu fiquei até bem pouco tempo atrás. pelos amigos e pelas delícias das atividades possíveis. Trocamos fotos. Passei quase um ano me preparando para um encontro em algum lugar da Europa. Essa oportunidade aconteceu em 2009, quando tive a chance de fazer um estágio de treinamento de trabalho num hospital em Madrid.
De Madrid seguiria para a Holanda onde nos encontraríamos em sua cidade, Arnhem. Uma aventura planejada mas não desconhecida. Sabia da vida dele, falávamos a qualquer hora, conhecia seus amigos, tinha assistido um video da televisão holandesa sobre ele quando do lançamento de seu livro em 2007.
Era e sou uma mulher independente e acostumada a viajar sozinha para congressos nacionais e internacionais. Topei a aventura embora sob protestos de parte da minha família.
Dia 15 de novembro de 2009 embarquei num vôo da TAP para Madrid levando na bolsa o passaporte e a coragem misturada com uma bela pitada de sonho e de amor. Porque já amava profundamente esse homem amigo e interessante que hoje é meu companheiro.
Emblemático que indo a Madrid para um estágio e treinamento em PET-CT em oncologia tenha no primeiro dia de passeio , após a rotina do hospital, parado para almoçar na Rua da Saúde: Calle de la Salud. Andando a toa achei essa rua que fica entre a Gran Vía e a Calle del Carmen. Esse nome não significa que hajá lá uma fonte milagrosa, uma água benta na igreja que cure todos os achaques nem que todos seus moradores e passantes sejam assim saudáveis.
O nome remonta ao século XV, época de uma epidemia da Peste Negra, em Madrid, no período dos Reis católicos. A cidade era muito menor e nesse local haviam quatro casas apenas, cujos moradores resistiram à doença, provavelmente porque moravam nessa zona mais limpa e higiênica. Os colonos nessa área cultivavam sua comida, tinham fonte de água independente e não se misturaram a outras pessoas. Alguns séculos depois essa área era um bairro, chamado bairro da Saúde e se o bairro não existe mais a rua manteve o nome de recordação.
Nesse lugar de saúde comi a primeira e mais deliciosa paella madrilenha.
O restaurante ficava exatamente em frente a um dos lados da Igreja de Nossa Senhora del Carmen, situada na Calle del Carmen, que faz esquina com a rua da Saúde. A igreja é a parte sobrevivente do antigo convento das religiosas carmelitas, fundado em 1575.
O restaurante escolhi ao acaso. Nenhuma recomendação. Apenas a placa com a foto de uma paella me atraiu. Poderia ter escolhido um lugar recomendado, mas gosto de para ao acaso e de acordo com minhas impressões de momento. E a comida foi deliciosa. E o vinho que era da casa e não escolhi. Só tomo vinho rosé quando paro para almoçar em viagens.A Taberna Galache não tem boa avaliação no Trip Advisor. mas quem se preocupa com opiniões de outras pessoas quando a vida é boa e a alma canta?
Tudo na Europa é tão antigo e tão esplendoroso. Meu coração palpitava de ansiedade, não sabia como esperar pelas horas da chegada a Arnhem.
Mas estava decidida e aproveitar minha viagem em todos os aspectos.
Nessa viagem inventei a selfie com câmara, usando espelhos. Como podia provar que estava realmente na Europa, em Madrid ou depois em Amsterdam. Daí nasceu minha paixão por selfies. Nesse dia tirei as selfies no hotel em que estava hospedada.
Não me lembro de ter pensado nem por um minuto que estava errada ou que o encontro não ia funcionar. Apesar de já apaixonada nosso relacionamento era de amizade e pensava sempre que gostaria dele como uma amigo. Não pensei em amor, ilusões ou desilusões. Apenas em desfrutar bons momentos em excelente companhia, o que já estava fazendo virtualmente todos os dias.
Nesse primeiro dia estava entusiasmada, fui de táxi do hotel para o hospital e nos outros dias de metrô. Não tirei muitas fotos porque era o dia de reconhecimento. No hotel sempre comi presunto serrano no jantar e no café da manhã. Abusei e amei.
Dormi regalada e absolutamente contente com os acontecimentos que viriam. Dia a dia. Contava os dias e pedia a mim mesma paciência. De noite comentava o dia com Jan que pelo menos não dormia tão tarde já que estávamos pela primeira vez no mesmo fuso horário.
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
Fernando Pessoa.
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| A página inicial do Second Life hoje. |
Conheci muitas pessoas interessantes das quais muitas são minhas amigas até hoje. Artistas, escritores, pessoas comuns, pessoas com incapacitação fisica, pessoas que buscam companhia para horas de solidão. Uma parte interessante desse ambiente virtual é o treinamento de outros idiomas, especialmente inglês. Era uma jogadora iniciante. Um grande ponto de encontro nessa época e ainda agora eram os clubes de dança com música ambiente de qualidade e possibilidade de conversas e de danças. Num desses clubes conheci Jan Kremer. Primeiro conversando sobre tudo e nada. Falando de arte, de música de literatura. Um dia ele me falou quem era, holadês, jornalista, escritor, apaixonado por Portugal desde que frequentou a Herdade da Marmeleira no Alentejo, mais exatamente a fundação Obras, onde escreveu um de seus livros. Acrescentou que tinha uma casa em Portugal onde passava férias em Évora Monte. Soube da minha vida mas não do meu nome completo. Todos os dias nos encontrávamos, todas as noites até tarde, muito mais para ele que chegava sonolento ao trabalho. Em meados de outubro, estava a trabalho num hotel em Fortaleza. Meu computador lento não permitia dançarmos. Falei disso, ele perguntou o nome do hotel, sabia meu nome e ligou logo em seguida.
A conversa mais banal e deliciosa do mundo. Se eu falava inglês, se gostava de Mario Vargas Llosa e outros assuntos banais que a emoção não me permite lembrar.
Desde então passamos a nos falar por telefone, algumas vezes pelo Skype. Por algum tempo no Second Life. Ele deixou o jogo e eu fiquei até bem pouco tempo atrás. pelos amigos e pelas delícias das atividades possíveis. Trocamos fotos. Passei quase um ano me preparando para um encontro em algum lugar da Europa. Essa oportunidade aconteceu em 2009, quando tive a chance de fazer um estágio de treinamento de trabalho num hospital em Madrid.
De Madrid seguiria para a Holanda onde nos encontraríamos em sua cidade, Arnhem. Uma aventura planejada mas não desconhecida. Sabia da vida dele, falávamos a qualquer hora, conhecia seus amigos, tinha assistido um video da televisão holandesa sobre ele quando do lançamento de seu livro em 2007.
Era e sou uma mulher independente e acostumada a viajar sozinha para congressos nacionais e internacionais. Topei a aventura embora sob protestos de parte da minha família.
Dia 15 de novembro de 2009 embarquei num vôo da TAP para Madrid levando na bolsa o passaporte e a coragem misturada com uma bela pitada de sonho e de amor. Porque já amava profundamente esse homem amigo e interessante que hoje é meu companheiro.
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| Paellas na Calle de la Salud. |
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| Igreja de Nossa Senhora de Carmen. |
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| A igreja no lado da Calle de la Salud. |
O nome remonta ao século XV, época de uma epidemia da Peste Negra, em Madrid, no período dos Reis católicos. A cidade era muito menor e nesse local haviam quatro casas apenas, cujos moradores resistiram à doença, provavelmente porque moravam nessa zona mais limpa e higiênica. Os colonos nessa área cultivavam sua comida, tinham fonte de água independente e não se misturaram a outras pessoas. Alguns séculos depois essa área era um bairro, chamado bairro da Saúde e se o bairro não existe mais a rua manteve o nome de recordação.
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| Minha bela paella com vinho rosé. |
O restaurante ficava exatamente em frente a um dos lados da Igreja de Nossa Senhora del Carmen, situada na Calle del Carmen, que faz esquina com a rua da Saúde. A igreja é a parte sobrevivente do antigo convento das religiosas carmelitas, fundado em 1575.
O restaurante escolhi ao acaso. Nenhuma recomendação. Apenas a placa com a foto de uma paella me atraiu. Poderia ter escolhido um lugar recomendado, mas gosto de para ao acaso e de acordo com minhas impressões de momento. E a comida foi deliciosa. E o vinho que era da casa e não escolhi. Só tomo vinho rosé quando paro para almoçar em viagens.A Taberna Galache não tem boa avaliação no Trip Advisor. mas quem se preocupa com opiniões de outras pessoas quando a vida é boa e a alma canta?
Tudo na Europa é tão antigo e tão esplendoroso. Meu coração palpitava de ansiedade, não sabia como esperar pelas horas da chegada a Arnhem.
Mas estava decidida e aproveitar minha viagem em todos os aspectos.
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| Foto tirada do Google Earth. |
Não me lembro de ter pensado nem por um minuto que estava errada ou que o encontro não ia funcionar. Apesar de já apaixonada nosso relacionamento era de amizade e pensava sempre que gostaria dele como uma amigo. Não pensei em amor, ilusões ou desilusões. Apenas em desfrutar bons momentos em excelente companhia, o que já estava fazendo virtualmente todos os dias.
Nesse primeiro dia estava entusiasmada, fui de táxi do hotel para o hospital e nos outros dias de metrô. Não tirei muitas fotos porque era o dia de reconhecimento. No hotel sempre comi presunto serrano no jantar e no café da manhã. Abusei e amei.
Dormi regalada e absolutamente contente com os acontecimentos que viriam. Dia a dia. Contava os dias e pedia a mim mesma paciência. De noite comentava o dia com Jan que pelo menos não dormia tão tarde já que estávamos pela primeira vez no mesmo fuso horário.
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| Foto para mostrar que estava em Madrid. |







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